Artigo na DBO: A importância do controle do consumo do suplemento no custo de produção

19/06/2018


* Sergio Carlo Franco Morgulis

** Fernando José Schalch Jr.

A suplementação dos animais é de extrema importância para suprir os nutrientes que limitam o desempenho dos animais e o aproveitamento dos alimentos ingeridos. Todo projeto pecuário de sucesso deve considerar com atenção os aspectos de suplementação, pois isso tem relação direta com a otimização dos recursos utilizados e os índices zootécnicos observados.

Existem diversos tipos de suplementos que atualmente são utilizados na pecuária. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, por meio da Instrução Normativa nº 12, de 30 de novembro de 2004, tem-se:

  1. a) Suplemento Mineral: quando possuir na sua composição macro e/ou microelemento mineral, podendo apresentar no produto um valor menor que 42% de equivalente proteico;
  2. b) Suplemento Mineral com Ureia: quando possuir na sua composição macro e/ou microelemento mineral e, no mínimo, 42% de equivalente proteico (mais de 15% de ureia, por exemplo);
  3. c) Suplemento Mineral Proteico: quando possuir na sua composição macro e/ou microelemento mineral, pelo menos 20% de proteína bruta (PB) e fornecer, no mínimo, 30 g de proteína bruta (PB) por 100 kg de peso corporal. Essa proteína bruta deve ser no máximo 85% oriunda de equivalente proteico;
  4. d) Suplemento Mineral Proteico Energético: quando possuir na sua composição, macro e/ou microelemento mineral, pelo menos 20% de proteína bruta, fornecer, no mínimo, 30 g de proteína bruta e 100 g de nutrientes digestíveis totais (NDT) por 100 kg de peso corporal.

Para cada tipo de suplemento são estabelecidos parâmetros mínimos de ingestão dos nutrientes que compõem o produto. Logo, cada tipo de suplemento possui um objetivo de suplementação e é capaz de atingir diferentes metas e benefícios de desempenho.

A Tabela 1 traz a ingestão média dos diferentes tipos de suplementos:

A diferença que existe em cada tipo de suplemento está na relação de concentração de nutrientes e no consumo da mistura final, ou seja, dependendo dos objetivos de performance e qualidade do pasto é possível fornecer o nutriente limitante. Isso significa que nem sempre maiores consumos de nutrientes impactam em melhores performances, pois esse maior consumo pode não ser do nutriente que está limitando a produção. Por exemplo: um bezerro desmamado de 220 kg precisa de 3 g de fósforo por dia via suplementação para ganhar 500 g de peso corporal em um pasto de águas. Mas não basta aumentar esse fornecimento para 4 ou 5 g de fósforo por dia para o ganho de peso aumentar, pois a proteína bruta pode estar limitando o desempenho. Assim, a utilização de um suplemento mineral proteico pode incrementar o consumo de proteína bruta e do mineral e aumentar a possibilidade de incremento de ganho.

Os suplementos visam suprir os nutrientes limitantes na quantidade estabelecida de acordo com o déficit nutricional resultante da equação: necessidade do animal – suprido pelo pasto = o déficit a ser suplementado do nutriente. Portanto, a concentração do nutriente no suplemento e a sua ingestão tem de ser considerada para verificar se o déficit foi suprido adequadamente. Por exemplo: uma vaca que necessita de uma suplementação de 6 gramas de fósforo deve ingerir 100 gramas de um suplemento com 60 gramas de fósforo por kg. Caso o suplemento tenha 40 gramas de fósforo por kg, o mesmo animal teria de ingerir 150 gramas para suprir o déficit.

Ao avaliar o consumo dos suplementos minerais proteicos e minerais proteicos energéticos, além de levar em consideração o consumo dos nutrientes, deve-se ter atenção ao consumo do aditivo utilizado, uma vez que, na maioria das vezes, o resultado deste é que viabiliza a implementação da técnica. Na média, o consumo preconizado dos diversos aditivos fica na casa de 20 a 40 mg/dia para cada 100 kg de peso corporal (monensina sódica, lasalocida, salinomicina, virginiamicina, entre outros). Um exemplo de como avaliar: um bezerro desmamado de 220 kg de PV deve consumir ao redor de 66 mg/dia de aditivo; considerando um suplemento mineral proteico para consumo de 0,1% do PV ou 220 g/cab./dia, a concentração do aditivo na mistura deverá ser ao redor de 300 mg por kg. Se o produto tiver 200 mg por kg, o consumo médio observado da mistura deverá ser de 0,15% do PV ou 330 g/cab./dia. A mesma conta serve para suplementos minerais aditivados (produtos que fornecem somente minerais e possuem ao redor de 1.000 mg de aditivo por kg de produto).

Fatores que interferem na ingestão de suplementos

Existem diversos fatores que interferem na ingestão de suplementos na fazenda, principalmente infraestrutura e manejo, com destaque para tamanho do lote, qualidade da água, área de cocho, frequência de reposição, qualidade dos cochos e localização dos cochos nos pastos. Todos esses fatores devem ser considerados para a utilização dos diversos suplementos. Existem ainda inúmeros fatores que levam ao desperdício de suplementos, tais como armazenagem inadequada, chuvas, ventos, sol, deixar o suplemento no cocho por longos períodos, trocar animal de pasto e deixar o cocho cheio no pasto que os animais saíram, entre outros. Controlar esses fatores é fundamental para a otimização dos custos.

O custo de produção é composto pelos valores dos insumos e serviços consumidos na atividade. É preciso saber quanto foi gasto para constatar efetivamente o resultado de uma fazenda. Em outras palavras, é preciso saber quanto foi gasto para desmamar um bezerro, quanto foi gasto para produzir um kg de bezerro, ou uma @ de boi magro ou boi gordo, ou quanto foi gasto para produzir um reprodutor. Importante esclarecer que custeio com atividades que aumentam a produção é diferente dos investimentos para a atividade funcionar. A suplementação deve ser encarada como custeio variável capaz de solucionar problemas de produção e diminuir dificuldades com perdas produtivas devido à ineficiência do processo.

 

Importância da coleta de dados

Controles devem servir para a tomada de ação a fim de mudar algo ou corrigir possíveis desvios e não para tomar tempo ou mais dinheiro da propriedade. É importante que todos os colaboradores da atividade estejam engajados para a coleta precisa dos dados de forma que se tenha uma informação confiável e importante para a tomada de decisões. É preciso criar uma cultura na equipe para coletar os dados. Na maioria das vezes, poucos dados já são suficientes para um bom acompanhamento do consumo dos suplementos, como exemplo: quanto foi colocado, onde e quantos animais de determinada categoria estavam no pasto no momento da salga.

Existem muitas maneiras de realizar o controle e coleta de dados da suplementação, desde a simples utilização de cadernetas a implementação de aplicativos com controles de cochos e produtos utilizando códigos de barras ou QR-CODE. É muito importante dar o primeiro passo e coletar essa informação, mas é fundamental que essa informação se transforme numa ação para melhorar a eficiência do processo, ou seja é muito importante chegar numa conclusão. Por exemplo a tomada de decisão está fundamentada em quatro passos:

– Primeiro Passo: Coleta de dados – por exemplo: colocou 50 kg de suplemento no cocho;

– Segundo Passo: Esses dados viram uma Informação – por exemplo: o consumo médio foi de 70 g/vaca/dia;

– Terceiro Passo: Com a informação chegamos numa conclusão – por exemplo: de acordo com o recomendado no rótulo do produto o consumo está baixo;

– Quarto Passo: Tomar uma ação para corrigir o problema – por exemplos: melhorar tamanho de cocho; melhorar frequência de salga; alterar o suplemento. Tudo isso respondendo: Quando? Quem? Quanto vai gastar? Onde?

 

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Com exemplos hipotéticos, mas baseados na literatura e experiência, podemos ver a influência da ingestão na receita com a venda da produção nas Tabelas 2 e 3.

Na Tabela 2 está um estudo de caso considerando um rebanho de 100 vacas suplementadas por um ano com mineral e o impacto sobre o resultado, variando quantidade de bezerros desmamados e consumo diário do suplemento mineral. Fica claro que os prejuízos produtivos pelo inadequado consumo do suplemento são muito mais significativos que a “economia” gerada pela redução do consumo. O prejuízo pela redução de bezerros desmamados por ano chega a R$ 13.029,00 (-19% do resultado), enquanto que a redução de consumo do suplemento “economiza” apenas R$ 1.971,00, mesmo sendo uma diminuição de 30% no custo com suplementação. Da mesma forma, o maior consumo de suplemento em 50% ou incremento de custo de R$ 3.285,00 de minerais que não estão sendo limitantes para produção só reduzem o resultado, pois não aumentam o número de animais desmamados, diminuindo, portanto, o resultado em 5%.

A Tabela 3 segue o mesmo raciocínio para avaliação de suplementos minerais proteicos e minerais proteicos energéticos em animais desmamados em recria.

Podemos observar que a ingestão inadequada prejudica o desempenho e o resultado econômico, tanto quando se come menos e como quando se come mais. Portanto, observar se a ingestão está dentro da faixa desejada e ou estabelecida pelo fabricante de suplementos é necessário para se ter uma boa rentabilidade na atividade.

Diante disso, o controle da suplementação é fundamental para o sucesso da atividade, pois alia a gestão dos gastos com a otimização da performance dos animais. Basta dar um passo adiante e implementar essa avaliação simples em nosso dia a dia.

* Sergio Carlo Franco Morgulis possui graduação e mestrado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia/USP e é diretor da Minerthal.

** Fernando José Schalch Jr. possui graduação pela FZEA USP e é gerente técnico da Minerthal

Controles básicos no campo (quem, quando e onde foi distribuído o suplemento) são essenciais

OBS – Versão estendida do artigo publicado na Revista DBO – Edição 452 – Junho de 2018 – páginas 76 e 77


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